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A preocupação com a qualidade de vida resulta na maior sobrevida dos animais e é reflexo tanto da atenção com a saúde e o bem-estar, quanto dos avanços tecnológicos na medicina veterinária. É notável a contribuição da tecnologia na melhoria dos serviços prestados para a saúde animal, seja no Brasil, seja em qualquer parte do mundo. Os exemplos variam desde simples aplicativos utilizados por acadêmicos e profissionais para o cálculo de doses de medicamentos, até as mais avançadas técnicas de cirurgia minimamente invasiva a partir de maquinaria especialidade. No entanto, até que ponto o investimento em pesquisas onerosas, que demandam tempo e dinheiro são prioritárias e aplicáveis à realidade da medicina veterinária brasileira?

Que os avanços tecnológicos devem trazer consigo alguma contribuição para melhorar ou aprimorar o que já existe é indiscutível. Mas na prática esses avanços, muitas vezes, não trazem benefícios que se encaixam na nossa realidade, especialmente levando em consideração a distribuição socioeconômica da população brasileira. Isso não significa deixar de lado investimentos em pesquisa tecnológica de ponta, mas sim, investir tempo e dinheiro em uma ciência voltada para a melhoria da saúde animal levando em consideração o contexto socioeconômico e cultural da população.

Deve-se ter em mente que a população brasileira difere da população norte-americana, europeia, asiática em muitos aspectos, inclusive na maneira de cuidar dos seus animais. Muitos patógenos são diferentes, o ambiente de criação é diferente, o estilo de vida e as formas de convivência são diferentes, a sociedade difere cultural e economicamente. O ambiente de criação é um dos principais fatores que ditam o estilo de vida e o modo de criação dos animais.

No ambiente rural, por exemplo, cães e gatos tem íntima relação com galinhas, patos, marrecos, bovinos e bubalinos, sem falar dos animais silvestres que transitam no ambiente peridomiciliar, e que acabam se “acostumando” com aquele ambiente modificado. Interações difíceis de serem vistas em ambiente urbanizado. Esse estreito contato inter-específico amplia consideravelmente as formas de transmissão de agentes patogênicos entre os animais domésticos e destes com animais silvestres, firmando um novo contexto dentro da saúde animal. Além disso, cães e gatos em ambiente rural vivem em contato direto com áreas de pastagem, agrícolas, vias sem asfalto, gramados e áreas de mata (Imagem 1). Este fato, associado ao baixo poder aquisitivo, pouco esclarecimento dos tutores sobre cuidados básicos e bem-estar animal, e baixo investimento em estratégias preventivas do poder público, dificultam ações de controle de vetores artrópodes, tais como mosquitos, pulgas e carrapatos.

Em países tropicais como o Brasil essa é uma realidade atual e presente em grande parte das comunidades rurais. Diferente do ambiente rural e urbano de países com outras características geográficas, socioeconômicas e culturais. Sendo assim, não é difícil justificar o porquê de se fazer uma ciência brasileira voltada para problemas brasileiros. O conhecimento construído dentro das Instituições de Ensino Superior (IES) deve vislumbrar os impasses locais, e não replicar o que está sendo feito para uma região com diferentes contextos. Nosso laboratório é o Brasil. Nosso problema está espalhado em cada região, estado, município, vila e não fora dos nossos limites.

A academia está cada vez mais formando médicos veterinários voltados principalmente para atender uma população urbana, alimentada pelo consumismo capitalista do mercado pet. Cuidados básicos com a higiene, assim como a venda de produtos que possam influenciar positivamente sobre o bem-estar são importantes para melhorar a qualidade de vida dos animais, da mesma forma que investir em cuidados veterinários especializados. Porém, cuidar da saúde animal também significa cuidar da saúde do homem e do ambiente.

Vamos a um exemplo prático. Sabe-se que a superpopulação de cães e gatos é um problema presente tanto no meio urbano quanto no meio rural, especialmente em países com economia emergente, como é o caso do Brasil. O descontrole reprodutivo, que já é uma problemática complexa por si só, visto que acompanha o desenvolvimento e a desenfreada expansão urbana, pode resultar em vários outros problemas, tais como aumento no índice transmissão de doenças entre os animais, aumento de dejetos e excretas como fezes a céu aberto, favorecendo a proliferação de artrópodes (moscas e mosquitos) que podem transmitir doenças, aumentam as chances de agressão intraespecífica, entre outros.

Não obstante, todos esses transtornos também refletem na vida do homem. Por exemplo, o aumento no número de animais de rua favorece as chances de acidentes de trânsito em vias movimentadas, sendo inclusive considerada a oitava maior causa de acidentes automobilísticos em rodovias federais do Brasil, superando o sono, ultrapassagem indevida e infraestrutura da via, além de ser a nona causa de acidentes com vítimas fatais (PRF, 2014). Maiores também são os riscos de transmissão das chamadas zoonoses, pois aumentam as chances de contato de um animal errante infectado com um sadio ou diretamente com o ser humano; além de aumentarem as chances de agressões intra e interespecíficas.

Portanto, o cuidar de cães e gatos vai muito além dos estabelecimentos que prestam serviços clínicos e cirúrgicos. Entender que esse tipo de problema é atual, emergencial e que afeta não apenas a saúde do animal, mas também o nosso bem-estar é dever de todo médico veterinário. Assim como é dever das IES discutir essa pauta em algum momento dentro da vida acadêmica e, na medida do possível, por em prática o que deve ser de praxe dentro das universidades, o pensamento científico critico, e não fazer uma ciência apenas por fazer.

Cada vez mais a academia, lugar onde as bases científicas deveriam estar pautadas em um pensamento crítico e uma visão holística da realidade, infelizmente está arrojada na pura e simples produção científica em larga escala, impraticável em sua grande parte. O ensino da medicina veterinária precisa ser revisto para não se tornar uma ciência voltada exclusivamente para servir ao capitalismo, como uma ciência cartesiana, direcionada e engessada.

O ganho que as especializações veterinárias trouxeram é indiscutível. Bem como os avanços técnicos que facilitam a vida do médico veterinário em seu atendimento cotidiano. Porém, existe uma medicina veterinária fora de estabelecimentos físicos e que é deixada de lado. E é justamente essa que parece ser a chave para os grandes avanços em nosso contexto atual. Pensar em como controlar a reprodução desses animais a fim de prevenir eventuais surtos patogênicos, ou mesmo diminuir as taxas de acidentes automobilísticos é apenas um exemplo, mas que parece ser um bom começo para treinar as etapas da pesquisa a partir de uma situação-problema complexa e que, certamente, trará ótimos resultados práticos para nossa realidade. Novos desafios requerem novas formas de pensar, mesmo que o objeto de estudo seja tão antigo como o descontrole populacional, porém, tão atual e complexo do ponto de vista de saúde pública.


Referências

Pessanha, L.; Portilho, F. Comportamentos e padrões de consumo familiar em torno dos “pets”. IV Encontro Nacional de Estudo do Consumo. Rio de Janeiro, 26p, 2008.

PRF – Polícia Rodoviária Federal. Estatísticas: Relatório 2010-2014. 2014. Disponível em: <https://www.prf.gov.br/portal/policiamentoe-fiscalizacao/estatisticas>. Acesso em: 10 de abril de 2018.

 

 

Disponível em:  http://blog.pubvet.com.br/index.php/2018/05/24/novos-antigos-desafios-para-a-medicina-veterinaria-brasileira/

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